06 - O Enamorado
O Amor não é a resposta, é uma pergunta
A cartomante deita as lâminas diante de você e uma delas chama sua atenção: “L’Amoureux”. No alto da carta, o número 6 em algarismos romanos (VI). No centro, uma ilustração medieval colorida, que mostra Cupido, um alado menino rechonchudo tendo o Sol atrás de si em segundo plano e apontando uma flecha para baixo com seu arco. Abaixo dele, três pessoas interagem entre si: à esquerda, uma mulher coroada com louros, com vestido vermelho e verde e aparentemente idosa; no meio, há um homem jovem com colete vermelho e verde e camisa azul, olhando para a mulher; à direita, outra mulher, aparentemente mais jovem do que a primeira, coroada com flores e vestindo azul e verde, olha para o homem. As mãos das três figuras se entrelaçam de modo um pouco confuso e não dá para ter certeza quais são as mãos de quem.
O que essa carta faz você sentir? Que pensamentos lhe vêm à mente?
O título da carta no Tarô de Marselha pode ser traduzido literalmente como “O Enamorado”, mas outras tradições tarológicas a chamam de “Os Enamorados” ou “Os Amantes” (“The Lovers”). Seja como for, a origem dessa imagem remonta à ideia do Amor. Porém, é também comum atribuir-se a ela, em leituras oraculares, a ideia de escolha, de tomada de decisão.
O que pode nos levar à pergunta: o amor pode ser uma escolha? Ou ele é necessariamente o fruto de circunstâncias do acaso? Será que é um sentimento que o Destino planta em nós, independentemente de nosso arbítrio? Será que é mesmo um sentimento, ou será um estado mental? Qual é a diferença entre sentimento e estado mental…?
Não sei.
A primeira dificuldade que sinto para responder a essas perguntas é que não existe uma definição simples de “amor”. Há muitas possibilidades de significados para essa palavra, a depender de quem a está usando e do contexto. O amor é um sentimento de entrega e confiança? É um desejo de estar junto a algo ou a alguém? É a vontade de que o objeto amado esteja bem, não importando nosso próprio bem-estar?
“E eu sei?” (LISPECTOR, Clarice).
Outra dificuldade aparece quando me pergunto ainda: qual é a relevância desses questionamentos? “Eu sei que o amor é uma coisa boa”, disse Belchior. Não é suficiente valorizar o amor como uma coisa boa, independentemente de ser fruto ou não de uma escolha? Mas entendo que nossa cultura supervaloriza uma noção limitada de liberdade, definida como a possibilidade de o indivíduo escolher, como mero livre arbítrio. E é por isso, talvez, que pensemos tanto no amor como uma deliberada aposta.
Não acho que tenhamos tanto poder assim sobre nossos desejos para “escolher amar”. Mas podemos apostar no amor ou na possibilidade do amor. Entretanto, como toda aposta implica numa incerteza a respeito dos resultados de certo investimento, penso que é pertinente nos questionar sobre o que é que esperamos quando apostamos no amor.
Por um lado, podemos estar incertos a respeito de nosso sentimento: será que o que eu sinto é amor, ou será outra coisa (paixão, devoção, submissão, carência, amizade, respeito, admiração, atração, desejo, medo etc.)? Será que meu amor corresponde ao que a outra pessoa espera de mim? Será que a amo tanto quanto ela me ama? Será que sou capaz de amar mais ou de manter o sentimento vivo? Por quanto tempo?
Por outro lado, a incerteza pode estar relacionada aos sentimentos de outra pessoa. Será que ela me ama? Será que ela está me enganando, fazendo-me acreditar que me ama? Será que ela me engana para tirar proveito de mim? Será que consigo fazer com que ela me ame ou continue me amando para sempre? Será que tenho esse poder de influenciar o que ela sente? Será que meu investimento afetivo vale a pena?
É impossível ter certeza sobre qualquer uma dessas perguntas. E é por isso que eu entendo que o amor é uma renúncia, uma aposta, um salto de fé. Não vale a pena se mortificar com dúvidas desse tipo. Se eu emprestar dinheiro a minha mãe, por exemplo, não vou cobrar nunca e, quando ela me disser que vai me pagar, que me deve x e me pedir para eu conferir a conta, eu nem vou me dar ao trabalho de duvidar, porque confio credulamente nela. Eu abro mão de desconfiar das intenções dela, de sua habilidade de calcular e de sua memória.
O amor mútuo é uma aposta, um ato de confiança, pois eu não posso ter certeza absoluta sobre o que outrem sente — mal posso ter certeza sobre o que eu sinto. A carta que a taromante lhe mostrou lhe diz para amar e esperar o melhor das outras pessoas. Pode ser que você se arrependa — certamente se arrependerá ao menos uma vez nesse tipo de circunstância (e aprenderá a não repetir o erro) —, mas terá carregado as melhores intenções em seu coração.





